Aesthesias Outras e imagens por elas mesmas

Visual Virtual MT é o principal produto da pesquisa intitulada “Artes Visuais em Mato Grosso: acervo, difusão e crítica”, financiada pela CAPES (PNPD Institucional), iniciada em 2011 na Universidade Federal de Mato Grosso e tem como objetivo disponibilizar digitalmente a produção visual contemporânea do estado e toda a produção acadêmica correlata.

O projeto é executado pelo Núcleo de Estudos do Contemporâneo (NEC), grupo de pesquisa vinculado ao Programa de Pós Graduação em Estudos de Cultura Contemporânea (ECCO) da UFMT. Ludmila Brandão é a coordenadora do projeto que conta em sua equipe com as pesquisadoras Suzana Guimarães, Larissa Menendez (até 2016) e Giordanna Santos, bem como as bolsistas de Iniciação Científica Célia Braga e Nathália Okde.

O VVMT conta, em seu acervo, com obras produzidas no estado desde a década de 70, especialmente após a criação, em 1974, da Universidade Federal de Mato Grosso, principal mobilizador das artes plásticas na capital e no estado. As produções visuais dos povos indígenas de Mato Grosso estão sendo paulatinamente incorporadas ao acervo, mediante interesse expresso por essas comunidades na difusão de sua diversa, rica e singular produção aesthésica, entendendo ser este o modo mais eficaz de abertura da sociedade à compreensão, conhecimento e interação respeitosa com esses povos. 

Apesar da semelhança que o VVMT guarda com o formato de um museu virtual, o uso dessa categoria foi dispensado porque além das funcionalidades de um museu constituído pela reunião de um acervo de obras e de informações sobre elas e seus artistas, o site reúne outras categorias de documentos como textos acadêmicos e críticos, catálogos de exposições e matérias jornalísticas. Através da vasta reunião de documentos visuais e textuais, – alicerçada em uma pesquisa continuada – espera-se que o VVMT funcione como fonte para pesquisas acadêmicas vinculadas à História, à Teoria e Crítica da Arte e da Imagem, à Antropologia e à Semiótica Visual e outras disciplinas correlatas, mas também para a própria pesquisa artística, cujos procedimentos podem constituir em inovações no campo da pesquisa acadêmica, num esforço interdisciplinar ou, mais propriamente, num esforço entre os saberes científicos, artísticos e cosmovisões outras não-ocidentais. A facilidade de acesso a esse material abre ainda um vasto campo de possibilidades investigativas que vão dos próprios processos criativos (as poéticas como espécie de metodologias artísticas) relacionando os elementos intrínsecos a seus processos constitutivos (técnicas, matérias e suportes), às reflexões teóricas sobre o estatuto da arte na contemporaneidade.

A escolha do nome – Visual Virtual MT – e a concepção da logomarca foram fundamentais para a própria predefinição do site. O nome “arte”, ou “arte visual”, como consta no título do projeto foi o primeiro obstáculo. Essa categoria Ocidental está definitivamente marcada por concepções hegemônicas fundadas em hierarquias que precisam ser expurgadas do campo das produções “aesthésicas”, ou seja, daquelas produções materiais e não materiais que possuem a capacidade de afetar corpos outros, de produzir sensações, situações, experiências. A Estética – criação ocidental com cânones restritivos -, conforme afirma Walter Mignolo, colonizou a Aesthesis que, ao contrário da primeira, reúne todas as formas e modos possíveis conhecidos e ignorados de realização de um evento – no Ocidente, chamado de fruição estética – que não se restringe ao campo da significação (semiótico) mas e, principalmente, opera sobre as sensações (aesthésico). Ao preferirmos falar em produções visuais, ou produções aesthésicas visuais, evitamos a armadilha das diferenciações rotineiras entre “arte” e “artesanato”, as predicações como “arte naïf”, “arte primitiva”, “arte indígena”.

Outra decisão importante para a concepção do site foi o privilégio da imagem. Especialmente no caso das produções indígenas, ainda que o conhecimento de natureza etnológica seja da maior importância, não é objetivo do VVMT sobrepor às imagens, quaisquer “interpretações” do campo da antropologia. Aqui as imagens não são pretextos para falarem de outras coisas e sim meta-textos, formas, linhas, cores que, nos mais diversos e impensáveis arranjos produzem sensações, situações, experiências outras. Com essa compreensão, os textos que acompanham as imagens são reduzidos ao mínimo necessário  a ficha técnica  de modo a privilegiar o encontro dos olhos com a imagem soberana.

Os desafios encontrados na realização da pesquisa e da construção do Visual Virtual MT foram muitos e das mais variadas naturezas (técnico, jurídico, logístico, etc.) mas, contrapôs-se a eles a colaboração das instituições públicas e a generosidade de artistas e dos povos que aceitaram participar do projeto. Hoje entendemos que essa receptividade decorre da percepção da importância estratégica que tem, em nosso mundo, a difusão cultural como meio efetivo de se fazer ver e conhecer por suas próprias produções sem as intermediações comumente redutoras.

O Visual Virtual MT pretende se constituir como um espaço difusor e mediador de cultura, pesquisa e reflexão acadêmico-crítica, incentivo e divulgação da produção visual contemporânea em Mato Grosso. Seu fácil acesso e já significativo acervo pretende tornar visível essa produção, desconhecida dos próprios habitantes deste estado, e totalmente ignorada pelo país e pelo mundo, salvo raríssimas exceções. Pretendemos que a visibilidade dessas obras irrigue as escolas deste Estado estimulando o surgimento de novos criadores, desenvolvendo o interesse pela produção visual e pelo estudo das obras existentes nos mais variados níveis de investigação: do trabalho escolar à tese de doutorado. Evidentemente esperamos também ultrapassar as fronteiras geográficas e culturais através da visibilidade das produções no mundo, nos mais diversos povos, visando contribuir com a construção do bem comum.




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